palace
Caminhe pelas ruas do centro de Borba e vai reparar numa coisa estranha: casas comuns, de dois pisos, rés-do-chão modesto — e, de repente, no meio delas, uma fachada que não devia ali estar. Um portal trabalhado, janelas de cantaria nobre, uma escala que destoa das casas vizinhas. São os palácios do vinho, e cada um deles é o retrato congelado de um momento em que alguém, nesta vila, ficou rico.
Foi por duas vezes que isso aconteceu, com quase um século de intervalo. A primeira, em meados do século XVIII, quando Borba vivia a sua época iluminista: o desenho da vila transformou-se, ruas alargaram-se, e ergueu-se, na antiga Rua da Aramenha, aquele que ainda hoje é considerado um dos edifícios mais importantes da terra — o Palácio dos Melos. Pertenceu a uma das famílias mais abastadas da região, enriquecida, como quase tudo em Borba, pela venda do vinho.
A segunda vez foi diferente, e mais reveladora. Na segunda metade do século XIX, a produção de vinho, que durante séculos se fizera do mesmo modo, em talhas de barro herdadas dos romanos, deu um salto que a Revolução Industrial trouxe a toda a Europa: chegaram os lagares, as prensas, o equipamento de adega moderno. E essa modernização teve um efeito social imediato: a produção deixou de estar espalhada por centenas de pequenas adegas familiares e concentrou-se em poucas mãos, as que tinham capital para investir nas máquinas novas. Foi nesse tempo que se ergueu o Palácio Alvarez, tão imponente como o dos Melos, mas nascido de uma riqueza diferente: já não a riqueza distribuída de uma vila inteira que fazia vinho em casa, mas a riqueza concentrada de quem soube industrializar primeiro.
Repare que estes dois palácios contam, sem quererem, a história de uma injustiça silenciosa. A arquitetura comum da casa do viticultor borbense, a que ainda hoje se vê em tantas ruas da vila, tinha sempre o mesmo desenho: o rés-do-chão para a adega e a taberna, o andar de cima para viver. Era uma casa que trabalhava e habitava ao mesmo tempo, modesta em tudo. Os palácios são a exceção a essa regra: a casa de quem já não precisava de morar por cima da própria adega, porque tinha outros a trabalhá-la por si.
E esta segunda geração de riqueza teve uma vida curta. Poucas décadas depois de o Palácio Alvarez se erguer, chegou a filoxera, e a vinha de Borba, a mesma que erguera aqueles muros, morreu quase por inteiro. As grandes famílias vinícolas que tinham construído palácios viram-se, de repente, sem a base que sustentava tudo. É a mesma história que esta vila já viveu de outras formas: a riqueza que sobe depressa numa única cultura, e a fragilidade de depender só dela.
Hoje, os dois palácios já não pertencem a família nenhuma. O Palácio dos Melos, depois de servir como escola, foi devolvido à comunidade pela autarquia: é hoje Biblioteca Municipal, com Espaço Internet, Oficina da Criança e Ludoteca — um edifício erguido para uma só família, cheio agora de crianças de todas. Não é a primeira vez que esta terra faz essa troca. As casas dos duques em Vila Viçosa viraram museus; os conventos, pousadas e centros culturais; e aqui, em Borba, os palácios do vinho tornaram-se casas de livros e de brincar.
A riqueza que uma vez separou uma família das outras é, hoje, o lugar onde a vila inteira se encontra.