


museum
Empurre a porta e recue um século. Os balcões e as estantes de madeira escura, os frascos de porcelana rotulados em latim, as balanças de precisão, os almofarizes, as pequenas máquinas de fazer comprimidos à mão: nada disto é cenário. É tudo original, e está tudo cá, do laboratório ao último frasco. Por isso este lugar tem um título que nenhum outro no país pode reclamar: é a mais antiga farmácia histórica completa de Portugal.
Para entender o que ela significou, é preciso lembrar o momento em que nasceu. Corria o ano de 1912. Vila Viçosa vivia o luto do seu mundo: quatro anos antes, o rei D. Carlos partira daqui para ser assassinado em Lisboa; dois anos antes, a monarquia caíra e o Paço esvaziara-se para sempre. Foi nessa vila órfã de reis que um jovem farmacêutico, o Dr. António Victor do Monte, abriu a 1 de agosto as portas daquilo a que chamariam um templo da ciência. Os séculos dos duques tinham acabado; começava o século dos comprimidos, das balanças de precisão e das fórmulas em latim. A modernidade entrou em Vila Viçosa por esta porta.
E convém perceber o que era então uma farmácia. O farmacêutico não vendia remédios: fazia-os. Atrás deste balcão pesava-se, moía-se, misturava-se e prensava-se, receita a receita, doente a doente. Cada frasco desta parede era um ingrediente; cada medicamento, uma pequena obra de oficina. Quando o médico da vila receitava, era aqui que a receita ganhava corpo, e é tentador imaginar as prescrições do Dr. Couto Jardim, o médico dos pobres, contemporâneo desta casa, a serem aviadas neste balcão. Numa terra pequena, a farmácia era o que ficava entre o diagnóstico e a cura: meio laboratório, meio confessionário, com o farmacêutico a saber das dores de toda a gente.
O século XX avançou, a indústria substituiu a oficina, e farmácias como esta desapareceram por todo o país, desmanteladas, vendidas, dispersas. Esta não. A família guardou tudo, três gerações a fio, até perceber que tinha nas mãos um tesouro nacional e tomar a decisão rara de o partilhar. A 1 de agosto de 2022, no dia exato em que a farmácia fazia cento e dez anos, abriu como Coleção Visitável, fruto da vontade dos descendentes, do município e do Museu da Farmácia. No ano seguinte, foi eleita a melhor coleção visitável de Portugal. "É um orgulho deixar este legado aos calipolenses", disse o neto do fundador. Nesta vila, já reparou, é sempre assim: o que importa, alguém guarda.
Antes de sair, demore-se ao balcão. Vila Viçosa está cheia de monumentos ao poder, à fé e ao génio, todos de mármore. Este é diferente: é o monumento ao cuidado. Um século de gente que entrou por aquela porta a perguntar por um remédio para a febre, para a tosse, para o medo, e de alguém deste lado que respondeu sempre à mesma pergunta, a mais antiga de todas: o que é que lhe dói? Os palácios contam a história dos grandes. Estes frascos de porcelana contam a dos dias de toda a gente.
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