

church
Olhe para estas duas fachadas e parece-lhe um só edifício. Não é. São duas casas de oração encostadas, com histórias opostas.
A primeira é o Convento das Servas. Conta a tradição que, no tempo em que a Virgem apareceu no soveral onde está a Matriz, apareceu também à filha de um oleiro e lhe indicou um tesouro escondido. Com esse tesouro ergueu-se aqui uma pequena ermida, cuidada por uma irmandade de mulheres, as Servas de Nossa Senhora. Em 1604 lançou-se a primeira pedra do convento, com o Duque de Bragança como padroeiro, e em 1645 chegaram as primeiras freiras, vindas do Convento das Chagas de Vila Viçosa. Tornou-se um dos conventos mais ricos da região. Tão rico que as filhas das famílias poderosas tinham casas próprias dentro da clausura: em 1685, um cavaleiro mandou construir aqui um apartamento com cozinha, chaminé e varanda para as cinco filhas que cá tinha.
A segunda é a igreja da Ordem Terceira de São Francisco, e nasceu de um princípio raro no seu tempo: era aberta a toda a gente, fosse nobre ou mecânico, rico ou pobre. Fundou-se em 1670, e um dos primeiros gestos foi de um homem que já conhece deste mapa: Dinis de Melo e Castro, o general de Montes Claros, ofereceu à irmandade a sua mesa redonda para as reuniões. A mesa ainda existe, na Misericórdia. Dois anos depois, as freiras cederam aos irmãos uma capela na sua igreja, com uma condição escrita: a porta ficaria aberta de dia e de noite, para que pudessem entrar sempre que quisessem.
Os irmãos foram mais longe. Em 1676 começaram a sua própria igreja, encostada ao convento, e rasgaram a parede das freiras para lá abrirem a tribuna, pagando-lhes quatrocentos e oitenta réis pela pedra. Os trabalhadores eram pagos em parte com vinho, incluindo os jornaleiros vindos do Norte que trouxeram os leões de mármore que ainda aqui estão. E para fazer a imagem do padroeiro, um irmão cavalgou oito dias até Évora levando consigo a cabeça do São Francisco do convento das Chagas de Vila Viçosa, para o escultor a copiar.
Depois, os destinos separaram-se. O convento extinguiu-se devagar: a última freira morreu em 1885, e o Estado inventariou uma fortuna. Um jarro e uma bacia orientais foram para o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, onde ainda estão. A vila guardou-os de outra maneira: diz a tradição que eram de ouro e pedras preciosas, e que serviam às freiras para lavar os pés na Quinta-Feira Santa. No século XX, uma tragédia no interior da igreja do convento interditou o culto, e o edifício fechou e foi perdendo quase tudo.
Na casa ao lado, aconteceu o contrário. No século XIX, a devoção dos borbenses fixou-se numa pequena imagem de Cristo com a cruz às costas: o Senhor Jesus dos Aflitos. Trazia multidões a Borba, teve hino composto por Tomás del Negro, e quando a República confiscou as igrejas, em 1911, esta escapou, por ser capela privada da sua irmandade. Ainda hoje é das imagens mais queridas da vila.
É uma lição que se lê com os olhos: das duas portas encostadas, fechou a do convento mais rico. Ficou aberta a da irmandade de toda a gente. A que prometeu, em 1672, nunca se fechar.