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Há uma forma curiosa de medir a gratidão de uma terra. Vila Viçosa, capital dos Bragança, terra de duques que foram reis, podia ter escolhido para feriado municipal uma batalha, uma carta régia, um santo. Escolheu o 16 de agosto: o dia em que nasceu, em 1879, um médico chamado João Augusto do Couto Jardim.
Filho de uma família de origem madeirense, Couto Jardim seguiu as pisadas do pai, que também era médico: foi estudar Medicina para Coimbra e terminou o curso em 1903. Podia ter ficado pela cidade, ou partido para Lisboa, como tantos. Regressou a Vila Viçosa. E nas primeiras décadas do século XX, tornou-se aquilo a que o Portugal rural chamava, com todo o peso da palavra, o médico da terra: o homem que se chamava a qualquer hora, para qualquer casa, e que conhecia as famílias inteiras, dos avós aos recém-nascidos.
A sua hora da verdade chegou em 1918, quando a gripe pneumónica varreu o mundo e chegou ao Alentejo. Foi a pior pandemia do século, e nas vilas do interior, sem hospitais nem recursos, o médico era literalmente a única linha de defesa. Couto Jardim fez então aquilo que os calipolenses nunca mais esqueceram: percorreu a vila de casa em casa, visitando os doentes mais pobres, e a esses não cobrou honorários. Num tempo em que adoecer podia arruinar uma família, o médico riscava a dívida e seguia para a casa seguinte.
Não fundou impérios nem deixou palácios. Deixou uma coisa mais rara: uma reputação sem mancha, construída visita a visita, ao longo de quase sessenta anos de prática. Quando morreu, em 1962, a vila que o vira nascer tratou de garantir que ninguém o esqueceria: deu o seu nome a uma rua, ergueu-lhe um busto, e fez do seu aniversário o dia da própria vila. Todos os anos, a 16 de agosto, Vila Viçosa celebra-se a si mesma no dia em que nasceu o seu médico — e há sempre flores junto ao busto.
Numa vila onde tudo fala de duques, esta homenagem diz outra coisa: a grandeza também se mede em consultas que não se cobram. Os reis desta terra estão nos panteões. O médico dela está no calendário.
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