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Igreja de São Bartolomeu em Borba

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History

Esta igreja não tem certidão de nascimento, e a razão é a melhor parte da história: foi construída sem autorização.

Em 1420, a Ordem de Avis tirou a Matriz de dentro do castelo e refundou-a fora da vila, do lado contrário àquele para onde o povo crescia. Era urbanismo por via da igreja: puxar a vila para onde a Matriz estava. Não resultou. Entre 1534 e 1560, os borbenses ergueram, no meio das suas casas e sem pedir a ninguém, uma ermida a São Bartolomeu. Por isso não há documento de fundação. Há só o primeiro registo, em 1560, que a encontra já cheia de gente.

Esse registo é uma inspeção. O prior da Matriz veio visitar a ermida rebelde para a desacreditar, e encontrou um certo Frei Luís que "provocava desacatos na vila motivados pelo então já apreciado vinho de Borba". Foi preso, e fugiu da cadeia para Espanha. É a mais antiga referência ao vinho desta terra a fazer estragos, e a vítima era um padre.

Por trás da ermida havia uma guerra entre o Arcebispado de Évora e a Ordem de Avis pelos rendimentos das paróquias. Enquanto os reis foram de Avis, o povo ficou com a sua igreja ilegal. Até 1580. Com Filipe II de Espanha, a Igreja ganhou, e a 6 de março de 1609 o próprio Filipe II assinou a carta que fez de São Bartolomeu paróquia. Repare na ironia: a igreja que Borba ergueu por teimosia deve a sua existência legal ao rei que tinha acabado de tirar a independência a Portugal.

A igreja nova fez-se em dezassete meses. E a sua abóbada de nervuras, no estilo do século XV, foi construída em pleno século XVII, de propósito: uma paróquia nova quis parecer antiga, e um povo que rejeitara a Matriz moderna escolheu o gosto de sempre. No teto pintado, pássaros debicam uvas, e os painéis centrais são vermelhos, a cor do sangue, da Eucaristia, e do vinho.

Depois vieram os mármores, os azulejos, o órgão. Os que a estudaram chamam-lhe um dos mais belos monumentos do Alentejo, ainda desconhecido da maioria. E em 2001, o arquivo desta paróquia foi encontrado aqui dentro, à chuva, sobre tábuas comidas pelos insetos. Salvou-o gente da terra. Borba perdeu a memória uma vez, pelo fogo de um general. Quase a perdeu outra vez, por desleixo. Das duas vezes, foi gente da terra que ficou com o que restava.

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