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Em Vila Viçosa, quase tudo o que é grande tem a assinatura de um duque ou de um rei. Esta capela, não. Quem a ergueu, na década de 1570, foi uma irmandade de gente comum da vila: vizinhos que se juntaram, pedra a pedra, para dar ao seu bairro uma casa para São João. Enquanto no Paço se recebiam embaixadores, aqui rezava-se, batizava-se, e festejava-se o santo de junho.
E porque era do povo, foi o povo que a foi enchendo de beleza ao longo dos séculos, cada geração à sua maneira. No século XVI, mãos anónimas cobriram as paredes de pinturas murais com cenas bíblicas. No século XVIII, chegaram os lambris de azulejos. Lá dentro, tudo é pequeno e engenhoso: uma planta em cruz grega com cúpula central, um púlpito de madeira a que se sobe por uma escada exterior, soluções de quem construía com o que tinha, e com muito gosto. O Padre Joaquim Espanca, o grande memorialista da vila, reparou até no som: os sinos desta capela tocam de forma gémea aos da Igreja de Santo António, do outro lado de Vila Viçosa. Duas vozes irmãs a responderem uma à outra por cima dos telhados.
O tempo, que poupa palácios e esquece capelas, foi-lhe pesando. No final do século XX era um imóvel classificado, mas cansado; entrou no novo milénio a precisar de socorro. E então repetiu-se a história da fundação: a vila voltou a juntar-se: câmara, paróquia e arquidiocese, num restauro de anos que devolveu a cor aos frescos quinhentistas e o brilho aos azulejos.
Se está a ouvir isto, tem sorte: está diante de um monumento acabado de renascer, reaberto em julho de 2026, quatro séculos e meio depois de os primeiros vizinhos o terem erguido. Entre, e repare nas pinturas murais: não sabemos os nomes de quem as pintou. Eram gente daqui, como quem construiu a capela, como quem a salvou agora. Em Vila Viçosa, os duques fizeram a história, mas foi o povo que a foi guardando.
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