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Tapada Real

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History

Este muro que se perde na paisagem tem dezoito quilómetros de comprimento. Do outro lado, vive um mundo que quase ninguém viu: sobreiros e azinheiras centenárias, veados, javalis, três capelas, um paço de caça, e um silêncio que já foi só de reis. É a Tapada Real, o maior espaço amuralhado do país, e um dos coutos de caça mais antigos de Portugal.

Quem a criou, por volta de 1515, foi D. Jaime, o 4.º Duque de Bragança, o mesmo homem que ergueu o Paço, o convento das Chagas e a Porta dos Nós. Mandou cercar de taipa a Herdade do Meio, entre as ribeiras de Borba e da Asseca, e reservou aquele pedaço de Alentejo para a caça exclusiva da sua casa. Os duques que se lhe seguiram foram alargando o cerco, geração após geração, até o muro abraçar seis quilómetros de comprimento por mais de três de largura. Lá dentro, o tempo passou a correr a outra velocidade: enquanto cá fora o montado se foi cortando e cultivando, ali ficou intocado, guardado a muro, como uma amostra do Alentejo original.

Foi o paraíso privado de vinte gerações. Os duques caçavam nela; depois de 1640, os reis vinham de Lisboa propositadamente para ela. E nenhum a amou como o penúltimo: D. Carlos, o rei caçador, para quem Vila Viçosa era o refúgio da alma. Foi aqui que passou os seus últimos dias, no final de janeiro de 1908, entre caçadas na tapada e serões no Paço. Na manhã de 1 de fevereiro, deixou este mundo murado e partiu para Lisboa. Ao fim da tarde desse mesmo dia, estava morto, assassinado no Terreiro do Paço da capital. O último sítio onde o rei foi feliz foi este. Do outro lado deste muro.

A monarquia acabou, mas a tapada não. Por vontade testamentária do último rei, D. Manuel II, os bens da família passaram para a Fundação da Casa de Bragança, que ainda hoje a gere. E o antigo paraíso dos caçadores ganhou uma segunda vida improvável: tornou-se laboratório. Há mais de duas décadas que cientistas estudam ali o montado, precisamente porque quinhentos anos de muro fizeram dele um dos ecossistemas mais bem preservados do Alentejo. O muro que servia para guardar a caça dos reis guarda agora outra coisa: o conhecimento do que esta terra era antes de nós.

A Tapada raramente abre ao público, e talvez seja essa a sua lição. Numa vila onde tudo se visita, este é o lugar que se respeita à distância. Encoste-se ao muro e escute: do outro lado, o Alentejo de há quinhentos anos continua a viver a sua vida, sem precisar de nós. Há patrimónios que se mostram. Este preserva-se escondido.

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