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Henrique Pousão

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History

Em Portugal, quase toda a gente conhece um quadro dele sem saber o nome: o rapaz de boina sentado ao sol, a "Cecília" de olhar sério, as casas brancas de Capri inundadas de luz. O pintor dessas telas nasceu aqui, no primeiro dia de 1859.

Henrique Pousão era filho de um juiz, e o talento chegou cedo: aos dez anos copiou um retrato de Rubens. Aos treze entrou na Academia de Belas Artes do Porto; aos vinte e um venceu a bolsa do Estado e partiu para Paris, para estudar com os mestres da época. Foi lá que tudo começou a correr mal. Numa saída para pintar ao ar livre, no frio, contraiu uma bronquite de que nunca mais se livrou. Os médicos mandaram-no para sul, atrás de melhores ares: Roma, e depois a ilha de Capri.

E foi na doença que Pousão encontrou o seu génio. Enquanto os colegas pintavam salões e cenas históricas, ele pintava muros caiados, sombras ao meio-dia, o mar ao fundo de uma janela, com uma modernidade que Portugal só entenderia décadas depois. Tinha vinte e três anos e estava a pintar à frente do seu tempo.

Mas a tuberculose não esperou. No outono de 1883, gravemente doente, embarcou de regresso a Portugal. Antes de partir, deixou três quadros pendurados no quarto, em Capri, com uma ordem estranha: que ninguém lá entrasse, "principalmente artistas pintores". Prometeu voltar na estação seguinte. Nunca ninguém soube o que esses quadros mostravam. Desapareceram, e até hoje não foram encontrados.

Pousão chegou a Vila Viçosa em novembro, para casa de um primo. Depressa deixou de conseguir sair para pintar. Então, acamado, pedia à família que lhe trouxesse flores do campo, e pintava-as da cama. Rosas num copo. Flores campestres do Alentejo. Foram as suas últimas obras. Morreu em março de 1884, com vinte e cinco anos, na terra onde tinha nascido.

O pai, destroçado, ofereceu toda a obra do filho à Academia do Porto: por isso é no Museu Soares dos Reis que hoje se vê o essencial de Pousão. Mas Vila Viçosa guarda-lhe a memória: o busto na praça central, e um pormenor em que quase ninguém repara. Na Igreja da Conceição, na capela do Santíssimo Sacramento, há um quadro pintado pelo avô dele, Caetano Alves de Araújo. O talento já corria nesta família, e nesta vila, muito antes do rapaz que foi buscar a luz a Itália e a trouxe para a pintura portuguesa.

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