Durante cinco séculos, o Redondo viveu do barro. Os pratos não têm assinatura, mas há quem os reconheça pela mão de quem os pintou.
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Em 1516, quando D. Manuel deu ao Redondo um novo foral, a carta já falava de uma corporação de oleiros e regulava o seu ofício. Quer dizer que, há mais de quinhentos anos, fazer louça era aqui uma profissão com regras próprias. E foi durante muito tempo a principal atividade da vila, a que dava trabalho a mais gente.
O barro tirava-se da terra à volta, trabalhava-se na roda e cozia-se em fornos a lenha. Saíam daqui dois tipos de louça. Uma era a de todos os dias, mais grosseira: alguidares, panelas, cântaros, potes para as azeitonas. A outra era mais fina: pratos, travessas, púcaros e tigelas, pintados com flores, o sol, o galo, o sobreiro, a casinha do monte e homens e mulheres a trabalhar no campo. Os almocreves carregavam-na em burros e levavam-na por esse país fora, até Lisboa, Coimbra, Caldas da Rainha, Faro e à Guarda.
As peças quase nunca eram assinadas. Mas no Redondo ainda se reconhece a mão de alguns pintores: a Ti Rita, que viveu de 1891 a 1974, o mestre Álvaro Chalana, de 1916 a 1983, e Adriano Martelo, que fundou a Casa Martelo e aprendeu com a Ti Rita. Para quem conhece, um prato destes diz quem o pintou como uma letra diz quem a escreveu.
A vila chegou a ter quarenta olarias. Hoje restam poucas, contam-se pelos dedos de uma mão, e só uma ainda coze num forno a lenha. Foi para que o ofício não se perdesse que o Redondo instalou este museu no antigo Convento de Santo António. Aqui se guardam peças desde a Pré-História, passando pelos romanos e pelos árabes, até à louça pintada do século XX. E aqui se dão oficinas, para que as mãos novas aprendam com as que ainda sabem.
O barro desta terra já foi pão, tigela e cântaro. Hoje é memória. Mas enquanto houver uma roda a girar no Redondo, ainda não é só memória.
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