

church
Repare na geografia deste largo: o Paço Ducal de um lado, esta igreja exatamente em frente. Não é acaso. Quando D. Jaime mandou erguer o palácio, em 1501, mandou também virar a fachada do velho convento para o Terreiro. Os Bragança quiseram ter a morte à vista da vida: da janela do Paço, os duques olhavam todos os dias para o lugar onde haveriam de descansar.
O convento é muito mais antigo do que tudo o resto: fundado em 1267, no reinado de D. Afonso III, foi a primeira casa religiosa de Vila Viçosa. Durante séculos foi simplesmente "o Mosteiro", e por ele passaram hóspedes reais, como o rei D. Dinis. Mas foi a Casa de Bragança que lhe deu o destino: em 1635 lançou-se a primeira pedra de uma igreja nova e monumental, e a partir de 1677 os duques, trasladados um a um, vieram ocupar os túmulos de mármore da capela-mor. Aqui está D. Afonso, o primeiro Duque, filho de rei. Aqui está D. Fernando II, o executado de Évora. Aqui está D. Jaime, com a sua culpa. E aqui está D. Teodósio II, no único túmulo de granito, o pai do homem que mudou tudo.
Porque há uma ausência gritante neste panteão: D. João IV, o 8.º Duque, nascido ali em frente, não está aqui. Ao tornar-se rei, em 1640, ganhou direito a outro panteão, o dos monarcas, em Lisboa. A coroa separou-o dos antepassados. Os duques ficaram na vila; os reis foram para a capital.
Mas a história mais comovente é a de um túmulo que pode procurar lá dentro: está vazio. Era para D. Duarte, irmão do rei. Quando rebentou a Restauração, D. Duarte estava longe, ao serviço do Imperador na Europa. Espanha, sem conseguir vingar-se do rei, vingou-se no irmão: fê-lo prender, e D. Duarte morreu no cativeiro, em Milão, sem nunca voltar. A família mandou-lhe fazer o túmulo mesmo assim. Séculos depois, continua à espera dele.
E este panteão ainda respira: em 1976, recebeu D. Duarte Nuno, pai do atual duque de Bragança. Sete séculos depois da fundação do convento, a família continua a voltar a casa. Quando sair, pare no meio do Terreiro e olhe para os dois edifícios, um de cada lado: em Vila Viçosa, os Bragança nunca saíram daqui. Apenas atravessaram a praça.