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O 8 de dezembro não é um dia qualquer em Vila Viçosa: é o dia da Imaculada Conceição, quando milhares de peregrinos vêm ver a Padroeira de Portugal. Foi nesse dia, em 1894, que nasceu aqui uma menina batizada Flor Bela d'Alma da Conceição. E foi exatamente nesse dia, 36 anos depois, que ela morreu. A vila celebra a Padroeira e a poetisa na mesma data, todos os anos.
A vida de Florbela começou com um segredo que toda a vila conhecia. Era filha do fotógrafo João Maria Espanca e de Antónia, a criada da casa, que tinha 15 anos quando ela nasceu. A mulher do pai, que não podia ter filhos, aceitou criar a menina como sua. Mas nos registos, Florbela era filha de "pai incógnito", e assim continuou toda a vida. João Maria só a reconheceria legalmente depois de ela morrer, quando o nome Espanca já era famoso em todo o país.
Talvez por ter nascido fora das regras, nunca coube nelas. Escreveu o primeiro poema aos oito anos. Foi uma das primeiras raparigas de Portugal a estudar num liceu de rapazes, em Évora, e depois uma das primeiras na Faculdade de Direito, em Lisboa. Casou três vezes num tempo em que as mulheres não se divorciavam. E escrevia sonetos de um amor e de uma intensidade que escandalizavam, e que fizeram dela uma das maiores vozes da poesia portuguesa. Fernando Pessoa, seu contemporâneo, chamou-lhe alma gémea.
Mas houve uma dor que não coube em soneto nenhum. O irmão Apeles, o único que tinha, piloto aviador, caiu com o seu hidroavião no Tejo, em 1927, frente à Torre de Belém. Florbela nunca recuperou. Na noite de 7 para 8 de dezembro de 1930, em Matosinhos, tomou uma dose excessiva de barbitúricos e morreu durante o sono, no dia em que faria 36 anos. O seu último livro, "Charneca em Flor", saiu semanas depois. Não chegou a vê-lo.
A vila que a viu partir acabou por trazê-la de volta: em 1964, os seus restos mortais foram trasladados para o cemitério de Vila Viçosa. Hoje, Florbela está em toda a parte na sua terra — no busto da praça, no mural do Largo D. João IV, na rua com o seu nome onde fica a casa em que viveu. E todos os anos, a 8 de dezembro, quando os peregrinos enchem a vila para a festa da Conceição, Vila Viçosa celebra as suas duas senhoras: a que está no altar, e a que está nos livros.
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