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Era sábado, 1 de novembro de 1755, dia de Todos-os-Santos. A Matriz estava cheia como poucas vezes no ano: gente confessada, gente para confessar, a missa cantada da Padroeira a decorrer como todos os sábados, há gerações. Ninguém podia imaginar que, a centenas de quilómetros dali, Lisboa estava a cair.
Passava pouco das nove da manhã quando a terra tremeu. As abóbadas oscilaram. E a da nave central — enfraquecida havia noventa anos, desde que os canhões espanhóis do general Caracena a fustigaram no cerco de 1665 — começou a ceder. Primeiro caíram pedaços pequenos. As pessoas tentaram sair. E foi então que o próprio ar da igreja, empurrado pela pressão da queda, fechou as portas sobre a multidão.
O que se seguiu, o Espanca reconstrói com um detalhe que ainda hoje arrepia: gente pisada nas portas fechadas, em lágrimas e gritos, a tentar arrombá-las com o corpo. Vestidos rasgados. Colares de ouro e brincos arrancados na confusão dos que se atropelavam para fugir. Os padres, sem tempo para mais, fugiram para trás do altar, refugiados junto ao camarim da própria Padroeira, e abandonaram a missa a meio. Lá fora, homens agarravam quem conseguia chegar às portas e puxavam-nos para o adro, para longe do que ainda podia cair.
Quando o pó assentou, restava contar os mortos. Vieram enxadas para escavar os soterrados, com a esperança de os encontrar ainda vivos. Os feridos foram ungidos ali mesmo, no adro, pelo prior dos Agostinhos que acorrera com o óleo do seu convento. Vinte e nove mulheres morreram dentro da igreja naquela manhã, e mais duas depois, dos ferimentos. E os sobreviventes, no meio do horror, encontraram nele um sinal: se a abóbada tivesse caído toda de uma vez, e não aos poucos, ninguém teria escapado. Chamaram-lhe um milagre da própria Senhora que ali se venerava.
Mas a tragédia ainda não tinha acabado. A Matriz ficou tão danificada que a Padroeira de Portugal, a imagem por quem um rei tinha abdicado a coroa cento e nove anos antes, teve de deixar a sua casa. Foi levada, em procissão solene e entre lágrimas, para a Capela Real, ali ao lado. Os moradores do Castelo, escreve o Espanca, sentiram-se órfãos. D. José I prometeu que ela voltaria assim que a sua igreja fosse reconstruída.
E aqui a história ganha o seu segundo capítulo, mais amargo que o primeiro. O prior pediu ajuda ao Estado. Pediu à Ordem de Avis, padroeira canónica do templo, que recebia dízimos precisamente por essa obrigação. Não veio um tostão de lado nenhum. A reconstrução da casa da rainha de Portugal foi paga, ano após ano, com as esmolas dos fiéis e os magros recursos da própria paróquia — o povo a reerguer sozinho o que o terramoto e a indiferença do poder tinham deixado cair duas vezes.
Quando finalmente fecharam a nova abóbada, o prior teve um gesto de gratidão: mandou pintar no teto, em fresco, as armas da Ordem de Avis, para lembrar quem era, ao menos no papel, a padroeira do templo. Foi então que chegou aos ouvidos do todo-poderoso Marquês de Pombal, que não gastara um único real do cofre do Estado nem da Casa de Bragança nesta obra. Mandou de imediato raspar o brasão de Avis do teto e substituí-lo pelas Armas Reais — as mesmas que hoje se veem ao entrar na Matriz. Não pagou a reconstrução. Não deixou, porém, que outro ficasse com o crédito dela.
Da próxima vez que entrar na Matriz e olhar para cima, para o brasão pintado no teto da nave, saiba o que está a ver: não é a história de quem construiu esta igreja. É a de quem, sem pagar nada, soube apagar a memória de quem pagou tudo.