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Antes de Florbela, antes de Pousão, a primeira criança-prodígio de Vila Viçosa nasceu em 1548. E o destino dela ficou traçado no batismo: os pais chamaram-lhe Hortênsia em honra de uma oradora da Roma antiga, célebre por vencer os homens na arte de argumentar. Numa época em que às raparigas se ensinava a bordar, os pais de Públia decidiram criar uma sábia.
E criaram. Públia estudou latim e grego com professores da Universidade de Évora. Conta a tradição que, para chegar aos estudos avançados, vedados às mulheres, se vestiu de homem e seguiu com o irmão Jerónimo, frade dominicano, para os bancos de Coimbra. Lenda ou não, o que os documentos garantem é ainda mais impressionante: aos dezassete anos, Públia defendeu teses de Filosofia em Évora, em disputas públicas, debatendo Aristóteles contra homens feitos, doutores e teólogos. E vencendo. Os sábios do seu tempo, como o humanista André de Resende, renderam-se-lhe por escrito. Há quem defenda que foi a primeira mulher da Europa a alcançar um doutoramento.
O momento maior chegou em 1581. Portugal acabava de perder a independência, e o novo rei, Filipe II de Espanha, percorria o país. Diante dele, Públia defendeu teses de Teologia: uma mulher portuguesa, de trinta e poucos anos, a argumentar perante o homem mais poderoso do mundo. Filipe ficou de tal forma impressionado que lhe atribuiu uma tença anual, uma pensão vitalícia paga pela coroa. O rei que conquistara Portugal com exércitos foi conquistado por uma calipolense com palavras.
Públia escreveu toda a vida: poemas em latim e português, cartas, diálogos filosóficos e teológicos. E aqui a história ganha o seu tom amargo: não sobreviveu uma única página. A obra ainda existia em 1614, guardada pelo irmão. Depois, perdeu-se para sempre. De uma das mentes mais brilhantes do Renascimento português, resta-nos apenas o eco, o testemunho deslumbrado dos que a ouviram.
Vila Viçosa não a esqueceu: tem busto na vila, e é o nome dela que os estudantes de hoje carregam na escola secundária. Há qualquer coisa de certeiro nisso: a rapariga que teve de lutar por cada livro dá agora o nome ao lugar onde todos têm direito a eles.
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