Passos do Senhor, Alto da Praça 1

Passos do Senhor, Alto da Praça

church

History

Antes de ser um Passo do Senhor, este lugar já era uma pequena igreja com uma missão invulgar. Em 1722, ergueu-se aqui a Ermida de Nossa Senhora da Nazaré com um único propósito: que os presos da vila, fechados na torre do Castelo ali ao lado, pudessem assistir à missa sem sair da prisão. Uma capela pensada para quem não podia entrar nela. Ainda hoje conserva, no interior, uma pequena janela por onde se via o altar da casa vizinha.

Trinta anos depois, em 1755, a vila decidiu transformá-la. Foi o ano do grande terramoto. A poucos quilómetros daqui, em Vila Viçosa, a abóbada da Matriz caiu sobre uma igreja cheia e matou vinte e nove mulheres. Borba não sofreu nada. E há quem acredite que os quatro Passos monumentais da vila nasceram precisamente disso: de uma vila inteira a dar graças por ter sido poupada, e a fazê-lo da forma mais borbense possível, em mármore da região.

Este, o do Alto da Praça, foi pago por um Capitão de Cavalos, António Duarte Franco, e pela mulher, Isabel Franca. O capitão não o viu acabado. No testamento, um ano depois, chama-lhe ainda "a Capelinha do Senhor dos Passos", confessa que não está pronta, e manda o filho terminá-la. Deixa-lhe um terço de tudo o que tem, com uma condição: que ali se reze uma missa pela sua alma, todos os domingos e dias santos, para sempre. A viúva cumpriu. Uma filha ficou a gerir os bens. E a capela acabou-se.

É o último dos quatro Passos, o fim do caminho da procissão. As outras três capelas representam as três quedas de Cristo na Via Sacra; esta representaria, por isso, o Calvário, com o bom ladrão e o mau ladrão de cada lado da cruz. E não é difícil perceber porquê: era o tema certo para os homens que olhavam da torre da prisão. Uma lição de pedra, permanente, para quem estava do lado de dentro das grades: que ao lado de Cristo houve um ladrão que se salvou.

Os Passos de Borba são atribuídos a José Francisco de Abreu, o arquiteto que desenhou a Igreja da Lapa em Vila Viçosa, e há quem note que uma das pedras de outro Passo tem a mesma marca de canteiro que uma pedra do Castelo: a vila reaproveitou a sua própria muralha para construir o caminho da fé. Évora começou esta tradição de capelas processionais, Vila Viçosa e Estremoz seguiram-na, mas os de Borba são os mais monumentais de todos.

E não são museu. Todos os anos, na Semana Santa, a procissão dos Passos continua a sair, como há quase três séculos, e continua a acabar aqui, no Alto da Praça, no lugar que um capitão pagou para não ver, e que nasceu para ser visto por quem não podia sair.

Curated by Storypath

Há mais histórias como esta em Borba.

Storypath.ptExplorar
A ouvir sobre
Passos do Senhor, Alto da Praça