Catarina de Bragança 1

Catarina de Bragança

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History

No dia 25 de novembro de 1638, nasceu no Paço Ducal de Vila Viçosa uma menina chamada Catarina. Naquele momento, era apenas a filha do 8.º Duque de Bragança. Dois anos depois, o pai saiu deste mesmo palácio para ser aclamado rei D. João IV, e a menina da vila tornou-se infanta de Portugal. A infância dourada entre o Paço e o convento das Chagas, ali ao lado, onde foi educada, não durou: Catarina cresceu para ser aquilo que as princesas eram no século XVII — um tratado de paz com rosto humano.

E que tratado. Em 1662, casou com Carlos II de Inglaterra, e o dote que levou foi um dos maiores da história: dois milhões de cruzados, a praça de Tânger e a ilha de Bombaim — a semente do império britânico na Índia. Em troca, Portugal, ainda em guerra com Espanha, ganhou a proteção da maior potência naval do mundo. A independência que o pai proclamara, a filha ajudou a segurá-la com o próprio casamento. Três anos depois, Espanha desistia de vez, derrotada em Montes Claros, aqui ao lado. Não é exagero dizê-lo: a menina nascida neste palácio foi uma das garantias de que Portugal continuou a existir.

Em Londres, pagou o preço. Católica num reino protestante, nunca foi coroada. A corte troçava do seu séquito português, os panfletos caluniavam-na, e a dor maior foi íntima: três gravidezes perdidas, nenhum herdeiro, e um marido que colecionava amantes. Mas Catarina fez uma coisa notável: recusou-se a ser destruída. Manteve uma dignidade tão inabalável que o próprio Carlos II, tudo menos um santo, proibiu que a desrespeitassem e recusou sempre o divórcio. E enquanto a política a maltratava, ela ia conquistando a Inglaterra por outra via: os hábitos. Foi ela que fez do chá, que bebia desde Portugal, moda na corte — o gesto que se tornaria o ritual mais britânico de todos. Levou a geleia de laranja, os talheres à mesa, costumes de uma corte que era então das mais ricas da Europa. A rainha que a Inglaterra não quis coroar acabou por moldar o quotidiano inglês até hoje. Reza ainda a tradição que o bairro de Queens, em Nova Iorque, lhe deve o nome.

Viúva em 1685, acabou por regressar a Portugal, e o último ato foi talvez o mais surpreendente: nos anos finais da vida, foi regente do reino, governando Portugal em nome do irmão doente — e governando bem, com a firmeza de quem sobrevivera a vinte anos de corte hostil. Morreu em Lisboa, no último dia de 1705.

Olhe para o Paço: foi atrás daquelas janelas que tudo começou. Vila Viçosa deu a Portugal uma dinastia, e ao mundo deu esta mulher — que trocou a sua vida pela independência do país, perdeu quase tudo no caminho, e ainda assim deixou a sua marca na chávena de chá de milhões de pessoas, todos os dias, há mais de três séculos. Há impérios que se conquistam com exércitos. O dela conquistou-se às cinco da tarde.

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